segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Ao anoitecer

Há finais de dia mais marcantes do que outros. Em tempos contava-se uma história, talvez uma lenda, em que ao mesmo tempo que se via o último centímetro de sol no horizonte ouvia-se simultaneamente um suave assobio, um silvar aveludado que só alguns escutariam. Hoje, entardecer de ansiedades, ouvi o assobio do pôr-do-sol.

 

terça-feira, 7 de abril de 2015

O melhor

O melhor da minha Rádio. E há-que elogiá-los, os grandes homens, sempre. Principalmente enquanto estão(mos) vivos, enérgicos, activos. No dia em que partiu o grande Tolentino, venho aqui elogiar o "meu melhor". O Fernando Alves é o melhor da minha Rádio. Em minha opinião, é o melhor da Rádio toda. É meu mestre, o meu exemplo. O poeta da Rádio, sim. Ninguém faz Rádio como ele. O homem que faz filigrana com as palavras, o homem que escreve com arte e diz com coragem. O homem inquieto com a passividade dos outros. O homem desassossegado com o que se passa à sua volta. O homem que repara no que mais ninguém repara. O homem que todos devem ouvir. O homem que me ensina todos os dias. O meu querido Fernando Alves, que eu adoro e tanto admiro. És o melhor de todos!



segunda-feira, 30 de março de 2015

Uma música que escorre dos céus









O Mar, Fausto Bordalo Dias

E todo o mar se cobriu de infinitas riquezas
de anil e sedas e jóias e de odoríferas drogas
de si deitava nas praias moscatéis e licores
adoçando de sua bravura
o mar
nas margens adamascadas andam náufragos dispersos
mariscando lagostas ostras choupas taínhas
e bebem vinhos distintos de singulares aromas
se anda ao longo da costa em ofertas
o mar

E entregou Leonor
seus cabelos aos ventos
na quietude tão só
tão ausente de tudo
e mais quieta era a luz
no sossego das águas
e uma música escorre dos céus
devagar

E fazem tendas de aduelas de alcatifas majestosas
de outras peças de ouro e prata de cambraias e cetins
cobertas de colchas vermelhas de rosários de cristal
mas mais garrido do que toda aquela praia
o mar
e fazem velas das camisas e outras de damasco verde
as amarras de outros panos de veludo carmesim
de um remo fizeram o mastro
e a enxárcia de uma linha
e tão docemente embala este batel
o mar

Se todo o mar se cobriu de infinitas riquezas





terça-feira, 10 de março de 2015

Distraio-me com facilidade nos regressos

Distraio-me com facilidade nos regressos. É assim no carro, no metro, no comboio ou no avião.

Na idas sinto sempre uma tensão que faz com que torne fosca a luz do sol lá fora. Sinto que passo à pressa pela margem do rio sem o mimar. Atiro um olhar fugidio para o céu, olhar egoísta só para ver se me vai chover em cima. Às vezes nem tenho a certeza se o miro nos olhos. Deslizo o nariz pelos novos cheiros de pólen primaveris, mas não os sinto como merecem. Trituro a paisagem rasgada pela velocidade do lado de fora do vidro, sem vibrar. 

O regresso é diferente. Quase sempre já noite. Quase sempre já mais calmo. Silencioso, dócil, lento. Regresso com calma e com um leve sorriso distraído. E distraio-me com facilidade. Perco-me nos detalhes que ontem, também no regresso, não tinha reparado. Invento trajectos porque já não tenho pressa para ir pelo mais rápido. Esqueço-me dos mapas, das regras, dos ruídos, das preocupações. Cansada, mas mais solta. Exausta, por vezes, mas mais leve. Mais disponível para a surpresa. Mais atenta por estar distraída. Mais viva por estar de regresso.

A vida passa mais depressa nas idas.
  


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

BES 4 You, Mister Prime Minister

Reparem nesta pérola que estava na empresa que Passos Coelho visitou hoje. 200 perguntas sobre o BES e 52 cartas. Serão as de Ricardo Salgado?
BES 4 you, Mister Prime Minister...



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Da selvajaria ou a savana à portuguesa

Vinham em barda. Corriam como búfalos na savana. Cabos e microfones. Câmaras de televisão e flashes de fotografia. Saltos altos, mini-saias. Pastas e pastinhas. Assessores para dar e vender. Seguranças de auricular no ouvido. Altos, atentos. Cada Ministro e Secretário de Estado fazia-se acompanhar pela sua tropa. Era um enxame de abelhas à volta de um homem. Encontrões para cá, encontrões para lá. Pisadelas e amassos. “Céus, parece uma acção de campanha!”, desabafavam alguns.

O homem dos holofotes parava nos pontos estrategicamente indicados na lista pré-definida. A senhora baixinha da BTL, com uma pasta na mão, trazia um mapa fotocopiado com a planta da feira. Os stands estavam assinalados com marcador grosso cor-de-laranja. Era onde o homem dos holofotes teria de parar, nos stands “recomendados”. As abordagens friendly resultam sempre muito naturais, acreditam eles.

Os jornalistas, triste figura, atrás da “boca” de circunstância. Que mensagem informativa se passa com este tipo de trabalho? Enfim. Vinham em barda, sim. Corriam como búfalos na savana, sim. Agora uma pergunta de circunstância: “então não prova os doces, senhor Primeiro-Ministro?” E a resposta de circunstância. Vazia. E seguia a banda. E agora outra pergunta de circunstância, mas – importante - para o directo da tv. Ajeita o cabelo, sabe que está na tela. Estridente a perguntinha: “e tem motivos para brindar? Vai brindar ao quê, Senhor Primeiro-Ministro?” Gargalhadinhas dos assessores e daquele amontoado de gente. E a resposta vazia. E mais uns empurrões. E segue a banda.

O gabinete do PM tinha avisado que ele não iria falar com a imprensa à margem do tema do dia, o Turismo. Falaria no palanque sobre isso e mais nada. Era a informação oficial do gabinete. Mas das duas uma: ou o PM não sabia disto, ou não cumpriu o estipulado.

Conhecendo as falhas na comunicação do gabinete do chefe do Governo de Portugal, os jornalistas, ou pelo menos os que por ali andavam de microfone estendido debaixo do queixo do homem como que à espera da esmola da boca vazia, insistiam.

E não é que entre os queijos de São Jorge, as cortiças do Alentejo e os tamancos do Minho o homem falou sobre o Plano Grego apresentado em Bruxelas? E não é que com os dedos peganhentos da Ginginha e à frente do boneco cabeçudo do Galo de Barcelos, o homem falou sobre a Grécia? Não é inacreditável? Não há sentido de Estado na savana.

Não sei o que é pior. Se a barda de jornalistas a prestarem-se a esta figura ou se o homem dos holofotes a prestar-se àquilo. Venha o diabo e escolha.

Siga a banda. Em barda, como eles gostam. “Para parecermos muitos”.






sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sonho silencioso


Há menos de dois anos estive no Japão. Foi a viagem da minha vida. Hoje acordei lá. Sonhei que estava no Japão. Talvez em Kyoto, era lugar incerto. Havia cores, havia imagens, telhados, casas, memórias misturadas talvez. Havia jardins, palácios, árvores. Havia plantas, flores, pedras, pontes, caminhos, trilhos. Sim, havia trilhos estreitos. Seguros, esverdeados, húmidos. E eu por ali andava, em silêncio, em paz. Não havia pessoas. Ou se havia, estavam caladas a observar-me. O sonho silencioso do Japão voltou a atacar-me.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dedos petulantes

É nas épocas de aperto que maior é a minha necessidade de escrever. É quando não tenho tempo para nada que os meus dedos me pedem descanso do trabalho e visitas à escrita.
É quando passo mais horas ao computador que mais sinto necessidade de vir visitar-te, querido Diário. Esta mania terrível de os meus dedos tomarem conta de mim, de abusarem do meu tempo, de dominarem a minha vontade... Irritam-me vocês! Sim, os dez. Seus dedos petulantes!
Agora, que já arejaram, importam-se de me deixar voltar ao recato do trabalho?




sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Mimi

Vi-a no Verão passado. Estava queimadinha da praia, vestido leve e floral, sandálias baixas, pés tratados, cheia de colares e pulseiras coloridas. Tinha um ar saudável e feliz.

Cruzámo-nos na rua e rasgou um sorriso gigante, muito branco, olhos muito brilhantes e um sonoro “olá, há tanto tempo!”

A Mimi era mais velha que eu uns anos. Nunca estudámos juntas, ela era da Comercial, eu do Liceu. Na verdade nem sei bem como ou quando nos conhecemos. Teremos estado juntas em algum jantar de amigos comuns, em alguma festa.

Nunca conversámos sobre a nossa vida, falávamos sempre de passagem, dizíamos sempre um “olá” sorridente, seguido de um “tudo bem?”. A Mimi tinha sempre um mimo: “estás tão linda” ou “cada vez mais bonita” ou “vi-te na televisão!”. A Mimi estava sempre sorridente e era sempre simpática.

Na última vez que nos cruzámos acenou e soltou palavras doces no meio do sorriso rasgado: “um dia destes temos que tomar um café!”

Não tomámos. Nem vamos tomar.

A Mimi foi assassinada ontem pelo homem com quem vivia. O sorriso feliz da Mimi escondia cicatrizes, agressões, maus tratos e violência. A violência doméstica é crime. A Mimi procurou ajuda, procurou fugir da morte. Já tinha feito queixas. Já tinha procurado ajuda. Voltou para casa. Voltava sempre para casa, sabendo o que a esperava todos os dias. Mas na rua sorria para os outros. Tal como sorria para mim. E tinha sempre um mimo para oferecer. E tinha sempre um sorriso bonito.

A Mimi ligou à Polícia horas antes de morrer. Queixou-se da agressão. O homem com quem vivia ia matá-la, como ameaçava todos os dias. A Polícia não apareceu logo. O caso estava sinalizado. As instituições catalogaram o caso da Mimi como sendo de “baixo risco”. A Mimi foi morta. Assassinada com uma faca de cozinha na casa onde sabia que ia ser morta um dia. Na casa onde sempre voltava ao fim do dia depois de espalhar sorrisos e mimos aos que a conheciam. A Mimi voltava a casa, o seu inferno diário, onde se ia deitar com o homem que a ia matar.

Ser Mulher não é isto. Ser Homem também não.








sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

E tu, és Charlie?

- “Eu sou Charlie!”, disse ela com toda a certeza do mundo. 
- “És? Ou gostavas de ser?”
- “Eu? Eu sou, ora essa! Sou! Somos todos! Jornalistas e não só! Je suis Charlie! Nous sommes Charlie! Todos somos Charlie! Fui à manifestação. Gritei. Emocionei-me!”
- “Mas és Charlie todos os dias? Sempre?”
Pausa.
- “Acho que sim, bolas. Faço-o automaticamente. Ajo livremente. Conscientemente.”
Pausa interrogativa.
- “Hummm… Mas… Por exemplo, enviaram um repórter a Paris para cobrir os acontecimentos?”
Pausa preocupante.
- “Não… Infelizmente não…”
- “Porquê? Por que motivo?”
- “Pelo que me disseram, não havia dinheiro para isso.”
Pausa grave.
- “Vês? És Charlie só se tiveres dinheiro para ser Charlie. Não somos todos Charlie…”
- “Non! C’est pas vrai! És um castrador! És um materialista! Não é preciso dinheiro para se dizer a verdade! Oui, Je suis Charlie!!!”
- “Só sabes a verdade se tiveres dinheiro para a procurares. A imprensa não é nem está Charlie. Era bom que estivesse, mas não está. Não somos todos Charlie, querida… Lamento desiludir-te com a realidade. Mas fica-te bem sonhar. E gosto do teu sotaque francês…”






terça-feira, 6 de janeiro de 2015

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Perco-me, aos domingos

Não sei como há quem não goste dos domingos. Acalmam-me, regeneram-me, fortalecem-me. Abro o vinho e converso sem relógio. Passo mais tempo no banho. Bebo o café sem me queimar a língua. Leio com mais pausas. Ouço melhor a música. Não ligo a televisão. Apanho boleia do vento. Vejo melhor a minha sombra. Areja-me a semana. O dia cresce. Perco-me, aos domingos. E sabe-me tão bem.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Cavaco e os Cavalos

Conversa no Centro Equestre Internacional de Alfeizerão, no âmbito do Roteiro Presidencial sobre Economias Dinâmicas

Cavaco Silva: Este é bastante mais alto que os outros anteriores.
Criador de Cavalos: Exactamente, exactamente. Os outros têm um ano e pouco. E este já é um cavalo de sete anos, oito anos.
Maria Cavaco Silva: Os outros são bebés?
Criador de Cavalos: Os outros são bebés, exactamente. Mas temos mais pequeninos ainda.
Cavaco Silva: E onde é que tem as éguas?
Criador de Cavalos: Próximo de São Martinho do Porto, em Vale de Paraíso.
Cavaco Silva: Vai fazer viagens lá de vez em quando? [risos]
Criador de Cavalos: Não vai, não vai. A gente não os deixa.
Pessoa a acompanhar a visita: Elas é que vêm cá, não é? [risos]
Criador de Cavalos: Não. Nós fazemos assim: está aí o doutor que lhe faz a extracção do sémen. Já estamos a tentar exportar. Então fazemos palhetas e vendemos o sémen em palhetas.
Cavaco Silva: Coitado… [risos]

Pode ouvir esta conversa em audio aqui.
















segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Criatividade política inesgotável ou o momento Chapitô do OE15

Também tem piada anunciar uma descida de impostos com efeitos estimados para daqui a dois anos, sob forma de reembolso. Criatividade política inesgotável.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Informações. Conspirações. Off-shores. It's politics, stupid!

Tenho a cabeça num nó. Não consigo dormir. Excesso de informação. Trabalhar na área política e na justiça tem destas coisas. Há informação que me provoca asco. It's politics, stupid!

48 horas de conversas meio secretas, outras nem tanto, de telefonemas esquisitos e mensagens estranhas, de documentos falsos ou verdadeiros, de manipulações e jogo perigoso, de sedutores labirintos de pistas e rebuscadas teorias da conspiração.

Não sei se o mundo gira ao contrário ou se estão à solta os mais loucos conspiradores de Lisboa. Não sei se o bas-fond decidiu atacar tudo e todos ao mesmo tempo ou se a tough season entrou em pleno. Talvez sejam apenas os meus neurónios a pedirem um descanso em off-shore.





Too much information running through my brain. Insomnia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

New York, I love you but you're bringing me down


New York, I Love You But You're Bringing Me Down, LCD Soundsystem






New York, I love you
But you're bringing me down
New York, I love you
But you're bringing me down

Like a rat in a cage
Pulling minimum wage
New York, I love you
But you're bringing me down

New York, you're safer
And you're wasting my time
Our records all show
You are filthy but fine

But they shuttered your stores
When you opened the doors
To the cops who were bored
Once they'd run out of crime

New York, you're perfect
Don't please don't change a thing
Your mild billionaire mayor's
Now convinced he's a king

And so the boring collect
I mean all disrespect
In the neighborhood bars
I'd once dreamt I would drink

New York, I love you
But you're freaking me out
There's a ton of the twist
But we're fresh out of shout

Like a death in the hall
That you hear through your wall
New York, I love you
But you're freaking me out

New York, I love you
But you're bringing me down
New York, I love you
But you're bringing me down

Like a death of the heart
Jesus, where do I start?
But you're still the one pool
Where I'd happily drown

And oh
Take me off your mailing list
For kids who think it still exists
Yes, for those who think it still exists

Maybe I'm wrong
And maybe you're right
Maybe I'm wrong
And maybe you're right

Maybe you're right
Maybe I'm wrong
And just maybe you're right

And oh
Maybe mother told you true
And there'll always be something there for you
And you'll never be alone

But maybe she's wrong
Maybe I'm right
And just maybe she's wrong

Maybe she's wrong
And maybe I'm right
And if so, is there
If so

domingo, 14 de setembro de 2014

Ao Absurdo

Nas primeiras vezes que saí à noite, guiada pelo meu irmão, fui ao Absurdo. Era ao Absurdo que queria ir nas primeiras guerras de adolescente, quando nem sempre os meus pais me deixavam sair. Ali ia com as minhas amigas e amigos para as noites loucas do Absurdo. A noite não começava ali, mas passava sempre por ali. Nem marcávamos local. "Encontramo-nos logo, lá?". Ou em plena Avenida, alguém perguntava: "já passaste por lá?" Claro. "Lá" era sinónimo de "Absurdo". 

Ali tive os meus primeiros namoricos. Ali ouvi as melhores músicas pela primeira vez. Ali cantei e dancei como se não houvesse amanhã. É um grande bar. Um espaço de amigos e convívio que agora fecha portas, quase ao fim de trinta anos. Em festa, a animar almas, desde 1988! 

O "Absurdo" vai fechar. O "meu Bar" vai fechar portas na próxima semana. O Absurdo, a par do saudoso Seagull, foi onde sempre mais gostei de sair à noite em Setúbal. Como diz o outro, "fui tão feliz no Absurdo"... Tantos e tantos anos...

A última vez que estive com o Tileu foi no Absurdo. O meu querido Tileu, amigo bom que já morreu. Dançámos e rimos tanto nessa última noite. 

As festas do volley. Imaginem uma equipa de mulheres adolescentes a celebrar vitórias e a amargurar derrotas no Absurdo. Uma festa. E as coreografias das danças. E as vozes de coro. E os discos pedidos. 

Tenho as melhores memórias das noites mais divertidas. Os Carnavais, as festas temáticas, as sextas, os sábados, os verões, a música, a animação, os sorrisos, os abraços, os amigos, os tombos, os degraus, as pistolas de água, o balcão, os espelhos, os brindes, os shots, o gin tónico quando ainda não estava na moda, todas as festas, a originalidade, os wc mais espectaculares, os porteiros, os barmen, tudo...

Obrigada por tudo! 

Merecem um enorme aplauso de pé por tamanha dedicação. Todos, mas principalmente o Espanhol (o "DDT"!) e o Jovi (Jovi Zind' House), o histórico e resistente DJ. 

Foi bonita a festa, pá! 



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Animal Social Democrata

O momento de descontracção aconteceu ao quinto dia da Universidade de Verão do PSD. Estava calor, um dia cheio de sol em Castelo de Vide e na véspera havia começado a Feira Medieval.

O Eurodeputado do PSD Carlos Coelho apresentava aos alunos da Universidade de Verão o perfil do orador dessa manhã, Joaquim Azevedo, que ia falar sobre natalidade. Para além do currículo académico e profissional, aqui é tradição revelar alguns dados mais pessoais de cada convidado, tais como livros e filmes preferidos, hobbies, etc.

Na mesa, para além do convidado e do próprio Carlos Coelho, estava Hugo Soares, Deputado, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar Social Democrata e Presidente da JSD. E, perante o convidado, os jornalistas e uma centena de alunos, Carlos Coelho disse o seguinte: 

"O nosso convidado de hoje tem como hobby desenhar; o livro que nos sugere é "Quem não espera desespera"; a comida preferida, o arroz; o filme, "África Minha"; o animal preferido, todos... Temos aqui um homem eclético no que respeita aos animais..."
(uma pausa, um pequeno gaguejo e recomeça com um sorriso)
"Até gosta do Hugo Soares..."
(risos na sala)
"E a qualidade que mais aprecia é a bondade. Portanto, para nos falar sobre "Portugal envelhecido, promover a natalidade", Professor Doutor Joaquim Azevedo."

É claro que os alunos riram. Terão tomado nota. Não é todos os dias que ouvem um guru laranja, europeísta, cheio de piada, chamar "animal" a um companheiro. Mas a Universidade é isto mesmo: criar pensamento, produzir doutrina, abrir novos horizontes.

Audio para ouvir aqui


domingo, 31 de agosto de 2014

Hoje tenho o mundo ao contrário

Quero escrever Milão, escrevo limão.
Quero escrever calçado, escrevo dalçaco.
Quero escrever crianças, escrevo crinaças.
Quero escrever Europa, escrevo Eupora.
Quero escrever leva, escrevo vela.
Quero escrever Israel, escrevo Isreal.
Quero escrever Palestina, escrevo Pastelina.
Quero escrever, escrevo esvrecer.
Hoje tenho o mundo ao conrátrio.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sócrates bem conservado

Na lata está escrito que o prazo de validade é até 2019. Ainda dá, afinal, para mais uma legislatura. Ao que parece está bem conservado e pode ser consumido sem restrições. Acho que vou comer o Sócrates.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Regresso de férias

Regressei hoje ao trabalho depois das férias de verão. Apesar da inércia sazonal, que me levou a vociferar contra o despertador, regressei com um sorriso nos lábios. Sabe bem voltar, mesmo a uma redacção depenada e emagrecida à força.  



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dos Heróis

Faz hoje onze anos que o Sérgio Vieira de Mello morreu num atentado no Iraque. Conheci-o em Timor-Leste e aprendi a reconhecer que ainda havia Heróis. Recebi, naquela tarde tórrida de Agosto, o terrível telefonema a avisar-me do atentado. Desde então, até hoje, quase continuo a não querer acreditar. Saudades, querido Sérgio...


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Confissões de Silly Season

Tenho de fazer uma confissão. Sou uma dependente da informação. Não sei se isto se cura, já tentei várias terapias mas sinto que de ano para ano os sintomas se vão agravando. Talvez precise de ajuda especializada…

Ora vejamos. Se houvesse uma especialidade médica, um Senhor Doutor, que curasse dependentes de notícias e de informação, começaria por revelar-lhe alguns sintomas.

- Olhe, Sôtor, eu não sei se isto vai ser fácil, mas há indícios que eu penso que o Sôtor tem mesmo de saber. Eu, pelo menos, acho que isto não é normal.

- Então diga lá. O que é que sente?

- Olhe, um dia destes, em plena auto-estrada do Sul, parei à meia-noite e meia numa estação de serviço para tomar um café, e tive de pedir ao funcionário para aumentar o volume do televisor porque estavam a analisar uma decisão do Tribunal Constitucional. Resta dizer, Sôtor, que eu estava em pleno período de férias. Bem sei que, tendo-me apercebido que se tratava de um debate na Sic Notícias, devia ter virado a cara e evitado continuar exposta à informação. Mas não consegui…

- Humm… Isso é grave. E que mais sintomas manifesta?

- Ontem uns amigos contavam uma anedota enquanto almoçávamos. Acredita que assim que falaram em “Sócrates”, perguntei se se referiam ao antigo Primeiro-Ministro? Devo estar doente. Olharam para mim como se eu fosse um extraterrestre. Claro que não, estavam a falar de filósofos.

- Humm… Pois, isso também não é bom. Está a afunilar referências…

- Sinto-me mal, sabe? Quando estou com pessoas que não são jornalistas ou estão fora do meio político, não posso dizer as mesmas piadas, compreende? Não posso fazer trocadilhos sobre o Seguro e o Costa. Não posso dizer simplesmente a palavra “Passos”, perguntam logo: “qual Passos? O do Café?” Não posso falar simplesmente de Belém sem que pensem que estou a falar dos Pastéis ou do Belenenses. Compreende? Isto é uma enorme angústia… 

- Mas vê e lê tudo?! 

- Quase tudo, sim. Ouço noticiários, leio jornais. Até imprensa internacional, imagine...

- E que mais? Perdeu o apetite?

- Bem, isso não Sôtor. Também não exagere. Para comer e beber ainda estou bem.

- Mas consegue alimentar-se sem estar acompanhada por notícias?

[Silêncio]

- Hummm… Pois… O seu caso é sério…

- O que devo fazer, Sôtor?

- Bem, vou prescrever-lhe aqui uns comprimidos anti-notícias. Tem de tomar todos os dias pelo menos uma vez por dia até ao fim das suas férias. Todos os dias sem falhar.

- Muito bem. Obrigada Sôtor. Vou fazer isso, sim. E acha que devo tomá-los antes ou depois de ver o Telejornal? Ou é preferível logo de manhã ao pequeno-almoço durante a leitura dos jornais?





terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ando pelo mundo

Ando pelo mundo
Não presto atenção
Às músicas que não entendo 
Ando pelo mundo 
Estrada fora
Mundo dentro


terça-feira, 29 de julho de 2014

Notícias ao balcão

Há dias em que a redacção parece um snack-bar ou um café. Nestes, ouve-se o ruído do moinho a moer café, há o som dos motores das arcas frigoríficas, há o som das máquinas que gelam a imperial, o som dos talheres que caem, o fervilhar de pessoas que entram e saem, os saltos altos das senhoras na pedra gasta do chão, o som metálico da colher que mexe o café ou o galão. Os empregados de balcão gritam uns com os outros: “sai mais um café” ou “é uma tosta mista” ou “dá-me dois rissóis de camarão”.
Na redacção é quase o mesmo. Há o som de fundo, sempre presente, da minha rádio, há o som das televisões, fixadas na parede, ligadas em simultâneo. Há o som das impressoras a soltar o noticiário que vai para o ar daí a segundos, há o som dos dedos ágeis, tão rápidos, nos teclados dos computadores, há pessoas ao telefone, há telemóveis que tocam. Há o técnico de som que grita do estúdio: “a peça da Ju está montada e pronta para entrar! Faz refresh!”. Grita-se na redacção como quem pede mais uma sandes mista, de forma quase igualmente mecânica: “olha mais um ataque em Gaza” ou “passa-me o João para directo” ou “tira-me aí o som do Cavaco” ou “és a abrir!”.
Os dias na minha redacção são de burburinho e correria. Servem-se notícias ao balcão. De fugida. À pressa. Como num café. Mas sem clientes. 



segunda-feira, 21 de julho de 2014

Banda sonora do dia

Banda sonora do dia. Ouvi hoje de manhã na Antena 1 (Miguel Esteves Cardoso).



I remember when I was a little girl, our house caught on fire
I'll never forget the look on my father's face as he gathered me up
In his arms and raced through the burning building out to the pavement
And I stood there shivering in my pajamas
And watched the whole world go up in flames
And when it was all over I said to myself
"Is that all there is to a fire?"
Is that all there is, is that all there is?
If that's all there is my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is

And when I was 12 years old, my daddy took me to the circus
The greatest show on earth
There were clowns and elephants and dancing bears
And a beautiful lady in pink tights flew high above our heads
And as I sat there watching
I had the feeling that something was missing
I don't know what, but when it was all over
I said to myself, "Is that all there is to the circus?"
Is that all there is, is that all there is?
If that's all there is my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is

And then I fell in love
With the most wonderful boy in the world
We'd take long walks down by the river, or just sit for hours
Gazing into each other's eyes, we were so very much in love
And then one day, he went away and I thought I'd die, but I didn't
And when I didn't, I said to myself, "Is that all there is to love?"

Is that all there is, is that all there is?
If that's all there is my friends, then let's keep
I know what you must be saying to yourselves
If that's the way she feels about it, why doesn't she just end it all?
Oh, no, not me, I'm not ready for that final disappointment
'Cause I know, just as well as I'm standing here talking to you
That when that final moment comes and I'm breathing my last breath
I'll be saying to myself
Is that all there is, is that all there is?
If that's all there is my friends, then let's keep dancing
Let's break out the booze and have a ball
If that's all there is

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobrevivência

O darwinismo social está mais vivo do que nunca. Ou és o melhor ou morres. Sendo que o conceito de "o melhor" é altamente subjectivo. Podes ser o melhor a engraxar o chefe e assim serás verdadeiramente "o melhor". Se fores o melhor a trabalhar e incomodares o chefe, serás "o pior" - o verme a extinguir, o cancro que prejudica a evolução dos melhores.

Os melhores são os mais capazes. E, nestes novos tempos de darwinismo social, os melhores sobrevivem sempre. Saem sempre bem. Por cima. Em cima dos outros.

Os darwinistas sociais estão a liderar as organizações. Mas nunca ouviram sequer falar em Darwin. Ou terão ouvido vagamente. Porque nunca o estudaram, nem percebem o alcance. Porque nunca leram história, nem história social, nem sociologia, nem história económica, nem política social, nem políticas públicas, nem antropologia cultural, nem filosofia, nem psicologia social, nem sociologia urbana, nem demografia, nem ecologia, nem história das ideias políticas, nem direito, nem direito constitucional, nem direitos humanos, nem quaisquer outras ciências sociais. Porque isso não é ensinado nos MBA's (os que os têm, os que os compraram).

Os darwinistas sociais que estão a liderar as organizações e a sociedade não têm a noção de que a luta pela sobrevivência individualista vai matar a própria sociedade. Não sabem porque não páram para pensar no que estão a fazer. Não sabem que por detrás da competição individualista estão tiques de autoritarismo e de deriva anti-social, que podem culminar numa luta extrema pela sobrevivência. No limite, há-de matá-los também.

Os darwinistas sociais não querem pensar nas consequências dos seus actos. Pensar fá-los perder tempo. Não querem perder tempo no que pode estar para vir. Porque acham que os fracos nunca vão ter força para os derrubar. Os fracos, mesmo muitos, não constituem ameaça. Porque dos fracos, pensam eles, não reza a história. Mas os fracos são cada vez mais. E eles não sabem disso, porque não páram para pensar.

Os darwinistas sociais fazem o seu trabalho. Limpinho. O das saídas limpas ou o das negociações sujas. O que interessa é fazer o que tem que ser feito. Com dor, reconhecem falsamente combalidos, mas é o que tem que ser feito. Não se incomodam com os que ficam pelo caminho. Mesmo sendo pessoas. Porque os que ficam pelo caminho são os fracos.

A sociedade não quer saber dos fracos. Os darwinistas sociais estão de consciência tranquila. Fizeram o que tinha de ser feito. Fazem o que tem de ser feito. Se a natureza não elimina os fracos por si só, nós os fortes fazemos o que tem de ser feito. Seus fracos, orientem-se. Façam-se à vida. Morram. Longe.










terça-feira, 3 de junho de 2014

Fontes políticas... De notas falsas

As caixas multibanco têm mecanismos anti-roubo para evitarem que, uma vez roubadas as notas, o dinheiro circule impunemente. Para isso, perante o assalto, a máquina dispara automaticamente uma tinta vermelha de modo a tingir as notas que, uma vez pintadas, ficam inutilizadas.

Ora, no jornalismo devia haver mecanismos semelhantes.

Sempre houve fontes e jornalistas e sempre houve fluxo de informação com maior ou menor atrito, mas estas são as regras do jogo. Nem sempre a relação é fácil, mas não é isso que está em análise neste texto.

Por estes dias, em plena crise do PS e em pleno ataque do Governo ao Tribunal Constitucional, como acontece sempre em momentos de maior nervosismo político, vários protagonistas e actores políticos querem “meter na imprensa” as suas histórias. Ou as suas versões dos factos.

Porém, na maior parte dos casos, o que se constata é que fazem da imprensa e dos jornalistas apenas o amplificador das suas mensagens, o altifalante das suas convicções, os transmissores das suas opiniões, os moços dos recados das suas intenções.

É curioso verificar como, apesar de tudo, ainda há quem consiga dar a golpada e usar a imprensa para publicar informação que, na maior parte dos casos, é apenas tralha para confundir as pessoas e espuma encardida sob a forma de notícia.

Há expressões ou palavras facilmente identificáveis nesses textos. Deixaram uma marca. Ficam impressas as marcas digitais das “fontes” que tentaram (e conseguiram) vender essas “notícias”.

As fontes podiam ser mais criativas, por exemplo, ao não repetirem “chavões” a vários jornalistas, sob pena de, após a publicação, todos saberem quem são uns e quem são outros. E os jornalistas deviam ser mais exigentes e fazer o seu trabalho, em vez de publicarem "sem tirar nem pôr" a história tal como lhes foi passada.

É nesses momentos que devia haver um sistema de alarme semelhante ao das caixas multibanco. Deviam ser accionados mecanismos de alerta automáticos também na imprensa. Desse modo, essas "notícias" seriam tingidas com uma indisfarçável mancha vermelha, para todos os leitores saberem que ali houve um assalto. De ética.


domingo, 1 de junho de 2014

Livros gulosos

Inês e a mãe. Fim de tarde. Alto do Parque Eduardo Sétimo. Lisboa.
- Oh, mamã... Só mais este.
E a mãe respondia, embaraçada perante a senhora que as mirava do lado de trás do balcão.
- Não pode ser, querida. Já levas três.
- Mas tu prometeste, mamã... Hoje é o dia da criança... Disseste que eu podia escolher. Tu disseste. Tu prometeste.
A mãe, surpreendida com a capacidade de argumentação da criança, não teve resposta pronta.
- Vês, vês, tu sabes que eu tenho razão - insistiu a criança perante a nesga de parte fraca involuntariamente mostrada pela mãe.
- Inês... Mas tu já escolheste, filha. Essa é a tua prenda. Aliás, já tens aí três livros. São três prendas!
- Oh, mamãzinha... Só mais este.
O "mamãzinha" demoliu a frágil barreira que ainda existia na racionalidade emocional daquela mãe. Afinal, a criança não pedia doces. Pedia livros. A senhora do lado de trás do balão sorria.
A mãe da Inês não aguentou.
- Vá, só mais este. Tu realmente...
A criança deu um pequeno grito de alegria.
- És a maior, mamãzinha! Obrigada mamãzinha!
Estava tão feliz. Creio que a mãe também.
Há quem peça livros como quem pede doces. Que maravilhosa guloseima...


Fotografia de Ana Catarina Santos, Feira do Livro 2014



sábado, 31 de maio de 2014

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Furto? Não. Roubo, porque é com violência!

IRS concluído e entregue (submetido, como dizem os tipos das finanças). Dói-me a alma... É trabalhar para pagar impostos... A que horas parte o próximo vôo de emigração?


Imagem sacada d'A Viagem dos Argonautas 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Relvas, natalidade e um Partido unido

Miguel Relvas esteve ontem à noite no Conselho Nacional do PSD. Praticamente ninguém o viu entrar. Foi discreto e não quis prestar declarações à imprensa. Mas Relvas, uma vez sentado numa das filas da frente da sala onde decorria a reunião à porta fechada, foi saudado por quase toda a gente. Quem passava e o via lá sentado, começava por estranhar a presença. Mas depois do gelo inicial quebrado, Relvas foi abraçado e cumprimentado por muitos. Incluindo, o próprio Passos Coelho, segundo os relatos recolhidos pelo Diário Metafísico.

Este foi o segundo Conselho Nacional a que Miguel Relvas assistiu, desde que foi eleito membro no Congresso do Coliseu - indicado pelo Presidente do Partido. E até interveio, para falar da necessidade de o PSD protagonizar uma reforma do sistema político.

Neste primeiro Conselho Nacional após as eleições, em que o PSD teve uma derrota eleitoral clara, os PPD's aprovaram por unanimidade uma proposta para debater... A natalidade. Sim, a natalidade. Vão realizar um Conselho Nacional temático sobre o assunto e pedir contributos de vários especialistas.

Miguel Relvas esteve bastante activo. Saiu várias vezes da sala e chegou mesmo a ter algumas conversas em privado com alguns conselheiros e até membros do Governo, ex-colegas portanto.

Uma dessas conversas foi com a Ministra da Justiça Paula Teixeira da Cruz, numa sala contígua à do Conselho Nacional. Ambos estiveram sentados a trocar impressões durante longos minutos.

Até que apareceu Marco António Costa, o primeiro vice-presidente do PSD. Marco António chegou e cumprimentou ambos. Marco para Relvas: - "estás bom?" Relvas respondeu cordialmente com um leve aceno de cabeça. Um aperto de mão. Um beijinho à Ministra. Levantaram-se ambos, Paula e Miguel.

Uns segundos de impasse. A conversa que Relvas e Teixeira da Cruz estavam a ter, se era sobre política, foi interrompida. Algumas palavras de circunstância. E o tema muda radicalmente. Começam a falar de bebés. Sim, de bebés. Miguel Relvas e Marco António Costa foram pais há pouco tempo. Marco mostra-lhes, com doçura, fotografias no telemóvel. Relvas fala da sua experiência. Marco, compara. E se o teu também chora muito. E se dorme a noite toda. E se mudas fraldas. E se tem dorzinhas de barriga.

A proposta do Conselho Nacional para debater a política de natalidade, afinal, estava ali mesmo já a ser posta em prática. Marco e Miguel, ao fim e ao cabo, estão do mesmo lado da barricada. E ambos ouvem as ansiedades do amigo Passos Coelho. Se é para falar da natalidade, falemos de natalidade.




Habituem-se!

Andei vários anos a escrever neste blog sem nunca aqui publicar textos de política. Era uma fronteira pré-definida que sempre quis respeitar. Sobre política escrevia no Elevador da Bica, mas mataram-me o blog contra minha vontade. Escrevia também (e vou escrevendo) n'O Que Fica Do Que Passa, mas está meio anémico.
À falta de blog politiqueiro activo onde pudesse escrever, resolvi invadir o espaço reservado e imune à política do Diário Metafísico. Supostamente seria uma decisão com validade limitada. Aqui publiquei textos e curiosidades acerca da campanha eleitoral para as europeias de 25 de Maio. Resultado: nunca tanta gente leu este blog como leram os textos de política. Recebi feed-back de leitores que não imaginava ter e tive milhares de pageviewers por dia. Um sucesso de audiências...
O que quer dizer que o que andei para aqui a escrever durante anos a fio, sobre passarinhos e o Outono e poesia e viagens e o mar e os templos do Japão, etc. não interessa nada aos meus leitores. Ou antes, interessa menos que a política.
Por isso, enquanto autora única deste blog decidi (em assembleia-geral e com votação por unanimidade) quebrar a regra da excepção. Vou passar a escrever neste blog também sobre política. E sobre jornalismo. Afinal, a política interessa. Afinal, a política também é a minha vida.
Mas não se livram, senhores leitores, de levar com os passarinhos e o Outono e a poesia e as viagens e o mar e os templos do Japão à mesma. Fica um blogue mais variado, é certo. Ou mais rico, se preferirem. Talvez mais confuso. Mas tudo isso faz parte de mim. Olhem, como diz o outro, "habituem-se"!

PS: Tudo isto porque acabei de chegar de um Conselho Nacional do PSD, que estive a acompanhar enquanto jornalista, e agora que cheguei a casa apeteceu-me escrever uma quantidade de histórias! Desde logo sobre a presença e "actuação" de Miguel Relvas. Mas isso fica para um próximo post.



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: O amigo Marcelo

"Só nos faltava esta"; "com amigos assim quem precisa de inimigos?", "mas quem é que decidiu que ele podia intervir, não bastava estar presente?" - foram algumas das frases que se ouviram à meia-boca, entre dentes, na sequência do jantar comício da noite de Coimbra. A estrela de cartaz era Marcelo Rebelo de Sousa.

Com a memória fresca do modo como Marcelo conseguiu há menos de três meses levantar o Congresso do PSD, no Coliseu de Lisboa, os mais de quinhentos apoiantes ali presentes para jantar esperavam um número efusivo semelhante, capaz de mobilizar as massas sociais democratas - tão amarguradas e desiludidas com o partido - para os últimos dias de campanha.

Havia um enorme ruído na sala e, ainda antes de ser servida a sopa, Marcelo Rebelo de Sousa aproximou-se do púlpito para proferir a intervenção mais aguardada da noite. Falou apenas catorze minutos, longe dos quarenta que interveio no congresso. E praticamente não se referiu a Paulo Rangel ou a Nuno Melo. Uma ou outra referência aqui ou ali, um leve passar a mão pelo pêlo, mas no essencial Marcelo inovou no argumentário: o principal motivo pelo qual ia votar na Coligação Aliança Portugal não era o facto de ele ser do PSD, nem pelo facto de a Aliança Portugal ser uma coligação que envolve o seu próprio Partido, nem por reconhecer mérito e qualidade aos membros da lista PSD-CDS, nem pelo facto de querer premiar o Governo e sancionar o PS (argumento que tem sido invocado até à exaustão nesta campanha). Não. Marcelo disse: "tenciono votar nesta aliança" (sendo que o "tenciono" pressupõe ainda uma margem razoável para dúvidas) "por causa de Jean Claude Juncker".

Os rostos na sala ficaram pálidos. E gelados. Não fora o bando de rapazes das jotas, com vozeirões exagerados e estridentes cânticos de claque de futebol, a abafarem o gelo que se abateu sobre a sala, e quase teriam sido audíveis as estalactites a partirem-se com o choque.

Rangel sorria tímida e discretamente. Melo nem por isso. Os convidados de honra, na mesa dos candidatos, procuravam disfarçar o incómodo. Na sala, viam-se cabeças a rodar para a pessoa sentada ao lado, na mesma mesa, sussurrando-se dúvidas e críticas aos ouvidos uns dos outros. Vai votar em Juncker, diz ele com orgulho. E não em Rangel e Melo ou no PSD-CDS. "Esta é que é a boa razão para se votar na AP" - gritou lá de cima para a sala timidamente aplaudir.

Marcelo foi mais longe.  Além de ter baptizado a coligação de "AP" (iniciais de Aliança Portugal), referindo-se sempre à AP (ápê), e nunca à Aliança Portugal, o comentador televisivo quis picar e irritar particularmente o CDS-PP (há odiozinhos de estimação que nunca se esquecem), ao fazer publicamente uma referência elogiosa a Diogo Freitas do Amaral. É verdade que Freitas foi fundador do CDS, e foi nessa qualidade que foi invocado por Marcelo, mas já deixou o Partido de Portas há muito, já foi Ministro de um Governo de José Sócrates, não se tem inibido de criticar o executivo de Passos Coelho e apoucou Portas, rotulando-o de irresponsável. Freitas e CDS na mesma frase é mau sinal. E Marcelo fê-lo, mais ainda dando-o como exemplo: "estamos a ser dignos de Freitas do Amaral", disse Marcelo.Equiparou ao mesmo nível Freitas e Pinto Balsemão, conhecido como o homem-bom dos PPD's, o fundador do Partido acarinhado por todos os militantes.

A referência e o elogio do cruel Marcelo a Freitas quase pôs Nuno Melo a saltar da cadeira. Ficou branco e inerte. Um enorme balde de água fria para os "amigos PP's"...

Marcelo terminou a intervenção, desceu do palco e sentou-se à mesa, entre Melo e Rangel. Sorrisos amarelos. Os Jotas com cânticos futebolísticos. Entreolhares, comentários e críticas. Serviram a sopa. Gradualmente a imprensa começa a colocar nos jornais online a história do gelo coimbrão. As tv's e rádios começam a passar o inovador e surpreendente "argumentário de Marcelo". E Marcelo sorrindo.

Depois da sopa, vieram os discursos de Melo e de Rangel. Porém, ninguém falava noutra coisa senão nas palavras de Marcelo. "Vai votar no Juncker?!"; "Mas é disso que se trata?"; "Passou-se?!"; "Nem uma referência abonatória a Passos Coelho e ao Governo?!"

Mas o "número" do Professor não se ficaria por aí. Atento e espevitado, ao ver a reacção de toda a gente e ao começar a receber os feeds da imprensa, Marcelo "manifestou-se disponível" para se explicar à imprensa o que quis dizer, qual a mensagem exacta. Podia, a dita imprensa, porventura não ter compreendido bem o alcance da alocução do Professor. Mas a imprensa sentia-se esclarecida, sem dúvidas. Aliás, a intervenção tinha sido bem explícita e inequívoca. As palavras e ideias de Marcelo eram claras e repetiu-as de várias maneiras, para que não houvesse margem para dúvidas. Assim, a imprensa não sentiu necessidade de esclarecimentos adicionais.

Frustrado com a dispensa, Marcelo insistiu. Estava, nesse caso, disponível para falar à imprensa mas acerca de um outro assunto que "não tinha abordado durante a intervenção por respeito aos presentes, pois tratava-se de uma questão nacional e ele não queria misturar assuntos nacionais com assuntos europeus". Assim foi "vendido" aos jornalistas. Qual assunto, quiseram saber os jornalistas. Primeiro houve algumas respostas difusas sobre "assuntos vários", mas depois lá esclareceram que era para reagir a umas declarações quaisquer de Pedro Santana Lopes. Santana teria dito algo na CMTV (Correio da Manhã TV) que provocaria aquele ímpeto de necessidade de reacção por parte de Marcelo. Mais uma vez, a imprensa dispensou. Apenas a CMTV quis a reacção, como é natural.

Mas Marcelo não desmobilizava. Enquanto os jornalistas, sentados na mesma sala dos discursos, enviavam notícias e actualizações para as redacções, o comentador pululava por ali junto às mesas: metia-se, puxava conversa, perguntava como estavam, cumprimentava militantes e voltava a cirandar por ali. E não descansou enquanto não se sentou na mesa com os jornalistas.

Sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada, fez questão de esclarecer que o discurso que fez era "amigo", era "bom para o Governo". Ninguém lhe perguntou, mas quis dizer que não estava a "entalar o Governo", nem estava a ser "mauzinho para o Rangel e o Melo". Quis apenas limitar-se a falar do Juncker porque é, de facto, o que pensa. Estava, no fundo, a fazer uma boa acção.

Marcelo jantou bem, em Coimbra. Além da sopa de legumes, repetiu a dose de lombo de porco assado. E em cima, como sobremesa, já perto da meia noite, ainda comeu uma rodela de ananás. Para facilitar a digestão. Estava satisfeito.






segunda-feira, 19 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: Um Barracão para Juncker

A cena aconteceu num jantar de campanha da coligação Aliança Portugal mas bem podia ter-se passado nas zonas rurais da Roménia nos anos 80. Dificilmente Jean Claude Juncker há-de esquecer esta noite. Tudo o que aqui vai ser relatado é factual e há provas disso (registos fotográficos - vide abaixo do texto).

A organização do jantar coube à Distrital do PSD Porto presidida por Virgílio Macedo, que não parou um minuto: de um lado para o outro, para cima e para baixo e sempre ao telemóvel.

O local para acolher o possível futuro Presidente da Comissão Europeia deve ter sido meticulosamente escolhido. Não é fácil, afinal, seleccionar um local à altura de um convidado de tamanha notabilidade. 

Se imaginam um local belo, de tantos que Portugal tem, com vista sobre o Douro ou outra magnífica paisagem, enganam-se. Ou se imaginam que foi numa cidade ou vila moderna, arejada, limpa e com bom ar, enganam-se novamente. Ou, ainda, se imaginam que decorreu num salão elegante, bonito, sóbrio e bem decorado, estão muito enganados.

O PSD e o CDS levaram Juncker para os arrabaldes de Trofa, numa terra chamada Alto Bailares, Santiago do Bougado. É um bairro que podia ser o fim do mundo ou apenas a zona de conforto do rei Ghob.

Os acessos eram empedrados mas a maior parte das pedras estavam soltas. As estradas, cheias de buracos, pareciam caminhos de cabras. Caminhos estreitos, com casas a fazerem de bermas e esquinas raspadas. No chão, vasos rachados com flores de plástico quase sem cor, queimadas pelo sol. Casas com as persianas desengonçadas cheias de pó e teias de aranha ou, quando abertas, mostrando vidros partidos. Imóveis inacabados, em estuque. Vivendas sem tinta, em cimento ou betão armado. Placas de sinalização imperceptíveis, de tão enferrujadas. 

Nessa localidade perto da Trofa, há uma única rua e um único café: o Zairense. Cheirava a fritos, de óleo antigo, a cinco metros da porta de entrada. Nessa noite, o Zairense facturou mais que num mês inteiro. No Zairense até a mesa de matraquilhos tinha teias de aranha.

À porta do Zairense, Juncker não viu carros modernos, não poluidores ou eléctricos. Não. À porta do Zairense, Juncker terá visto um Mazda do início dos anos 80, com matrícula ainda de relevo e contraste preto e branco. Dos idos tempos em que Portugal nem sequer fazia parte da então CEE.

O PSD e o CDS enfiaram Juncker num barracão, com chão de cimento, feio, frio, sujo, cheio de rachas e ervas daninhas, cuja única entrada de acesso era através de uma porta de garagem, com portões de ferro enferrujados. Tudo aquilo era feio. 

A sala metia dó, esteticamente falando: mesas e cadeiras de plástico encavalitadas para caber sempre mais alguém. Umas tinham toalhas de plástico baratas, outras tinham-nas de pano, também baratas. Umas às pintas, outras de cornucópias, umas vermelhas, outras azuis, outras beige com pintas pretas. Em cima das toalhas havia candelabros a imitar prata – mas apenas nas mesas vip. A de Juncker foi contemplada com uma imitação de prata de lei. E velas misturadas brancas e laranja. Derretidas. 

Estavam 1200 pessoas na sala e havia apenas uma casa-de-banho – uma. As filas chegavam à cozinha. No corredor da casa-de-banho, junto ao urinol ao qual Juncker poderia ter tido necessidade de recorrer, estava o quê? Pilhas de papel higiénico? Não, meus senhores. Estão muito enganados. Estavam as caixas do pão que seria servido às mesas. Pãozinho para o Senhor Juncker, e os restantes 1200 confrades, directamente do WC.

E se imaginam que para que a comida fosse servida com produtos frescos faria falta um frigorífico, estão novamente os senhores leitores muito enganados. Para quê esse luxo? Basta uma carrinha que fica estacionada do lado de fora, no meio da estrada empedrada, a servir de frigorífico. De lá se tiram as saladas e os doces para a mesa do Senhor Juncker. Era um entra e sai do barracão para o “frigo-car”, que nem fazem ideia.

Um mimo, este jantarinho.

Em vez de levarem o homem para a Alfândega do Porto ou para a Casa da Calçada em Amarante ou para o Parque das Nações, não senhor. Levam-no para os arrabaldes de Trofa. “Mr. Juncker welcome to Trofa!”

Aposto que o Secretário de Estado do Turismo Adolfo Mesquita Nunes deve ter adorado. E aposto ainda mais que Paulo Portas, que tudo faz para vender um Portugal moderno lá fora, há-de ter ficado encantado.

É certo que o vintage está na moda. Mas não exageremos. Nem o Rei Ghob se sentiria bem naquele barracão. “I love Portugal”, disse Jean-Claude Juncker no final do jantar. Pena, ter escrito o discurso antes de ir ao Alto Bailares, Santiago do Bougado, Trofa.






























sábado, 17 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: A coligação pedala, pedala

Foi na Ribeira da Murtosa, Distrito de Aveiro, que se testou o nível competitivo da coligação. Depois de uma palestra sobre sensibilização ambiental, a dupla da maioria pôs as pernas à prova, agarrou nas bicicletas e avançou. Nuno Melo era o que estava mais à-vontade e, logo no início, ganhou uma ligeira vantagem.
- "Queres uma guita?", perguntou Melo a Rangel.
Mas pouco depois, já pedalavam lado a lado.
- "E sem rodinhas! Deixei as rodinhas aos cinco anos. Já foi tarde, bem sei, mas antes tarde..." - esclareceu Rangel aos jornalistas, no final da iniciativa.


Fotografia de Ana Catarina Santos


Fotografia de Ana Catarina Santos

PS: Para que conste, ninguém assobiou a música da banda sonora da série Verano Azul.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: Aqui há Relvas

Esta é a primeira campanha dos últimos anos sem a presença de Miguel Relvas. O antigo braço direito de Pedro Passos Coelho no PSD saiu do Governo e dos cargos dirigentes do Partido há mais de um ano. E desde que regressou ao Conselho Nacional do Partido pela mão de Passos Coelho, no Congresso do Coliseu, foi visto apenas uma única vez em iniciativas partidárias. Mas no partido laranja, em surdina, bem que se tem suspirado por um Relvas que os ajude. 

Marco António Costa, o actual homem do aparelho, tem-se alheado da campanha. Vá-se lá saber porquê... Essa responsabilidade foi delegada. A estrutura, organização, planeamento e concretização da volta nacional da campanha têm dependido de Carlos Coelho, que é simultaneamente Eurodeputado, candidato a Eurodeputado e Director de campanha. Praticamente não tem saído da sede, na São Caetano, por não ter mãos a medir. A articulação entre os dois Partidos da coligação também é feita por ele. Claro que alguma coisa há-de falhar. 

É certo que Carlos Coelho é Eurodeputado há muitos anos e conhece bem o seu PSD. Mas alguém imagina Carlos Coelho a dar dois berros ao telefone com as máquinas distritais e concelhias? Ou alguém imagina Carlos Coelho a dizer uns palavrões para "obrigar" o aparelho a dar apoio à coligação no terreno? Por isso - ou também por isso - tem sido confrangedora a evidente falta de organização e mobilização do aparelho partidário, tão visível nas acções de campanha. Ao ponto de, por exemplo, na Guarda ter sido o próprio Presidente da Câmara Álvaro Amaro (PSD) a pedir desculpa aos candidatos pela falta de mobilização das estruturas locais. 

"Falta um homem forte, falta pulso", ouve-se frequentemente nos bastidores. "Sem Marco António e sem Miguel Relvas, o PSD está anémico junto do aparelho", recordam alguns. 

Há um par de dias, quando a comitiva da coligação PSD-CDS visitou as Caves da Murganheira, em Tarouca, onde Nuno Melo e Paulo Rangel beberam da mesma garrafa de champanhe "sem nojo um do outro", alguém reparou numa pilha de caixas de Relvas. Relvas, neste caso, é o fornecedor de cápsulas de champanhe para a dita empresa. "Ao menos estes têm um Relvas que fornece os que eles necessitam". It's a dirty job, but someone's gotta do it

Pilhas de Relvas, Caves da Murganheira, Tarouca